O Jardim

O sol já estava alto no céu, sua luz e calor enchendo a paisagem, quando eles chegaram. Eles não desceram no Jardim; não quiseram entrar ali ainda, já que não havia nenhuma missão ou tarefa a executar. Queriam apenas observar.

A relva verde balançava com uma brisa leve, tocando e acariciando seus pés. Estavam a uma certa distância do Jardim, mas podiam enxergar tudo perfeitamente de onde estavam.

Ficaram parados da mesma forma que chegaram por um longo tempo; apenas observando. Não, não só observando: estavam absorvendo a cena completa, estavam vivendo a experiência daquele lugar.

Ahnle foi o primeiro a falar. “Cada elemento daqui está em harmonia com os demais. Cada pedaço faz parte do todo e reflete o todo.”

Tur-nan concordou com um movimento de cabeça. Um’el fez o mesmo, mas um pouco mais lentamente e sussurrando: “Isto é belo. Isto é bom.”. Abthiel concordava, mas não fez sinal algum; apenas continuou parado, com os braços cruzados, olhando à sua frente, sua figura massiva quase fazendo sombra sobre seus amigos. Parado ficou como uma grande estátua, sorrindo um sorriso igual ao dos outros três. Mas os outros, que o conheciam bem, sabiam que ele estava silenciosamente concordando.

Quatro silhuetas paradas. Absorvendo aquele lugar, sua existência, seu significado. Estavam cheios de alegria. Espera, expectativa, esforço, e agora – finalmente – o tempo estava ali! Tudo estava pronto, e era muito bom.

A relva verde se espalhava em todas as direções até onde podia se enxergar, e ia até o Jardim mais à frente, entrando nele. A brisa soprava leve, fazendo-a acariciar os pés dos quatro observadores, assim como a luz do sol acariciava suas peles.


Abthiel desceu em silêncio, seus pés tocando a relva. Ele gostava do toque da relva. O Jardim ao redor dele pulsava com vida, sons, aromas, vento, movimento, tanto próximo quanto ao longe. Ele gostava deste lugar em específico; era reservado o suficiente para não interferir na vida à sua volta, e ao mesmo tempo dali podia-se ver o Jardim em sua totalidade.

Tur-nan e Um’el não reagiram à chegada do amigo; estavam conversando e continuaram. Não que eles não tivessem notado a sua chegada. Já estavam acostumados à chegada silenciosa de Abthiel, um cumprimento sem palavras nem olhares aconteceu entre os três, ainda que nada pudesse ser ouvido ou visto.

“O que eu estou dizendo” – falou Tur-nan, enquanto Abthiel inspirava com força, puxando o ar com os aromas do Jardim – “é que esta união tem um significado mais profundo.”

“Sim, eu entendo” respondeu Um’el. “É multifuncional. Há várias funções no organismo deles, nos níveis físico, espiritual, mental, emocional – em todos os níveis em que eles existem; há uma harmonização dos dois quando acontece. Do mesmo jeito que eles conversam ou fazem qualquer outra coisa juntos, cada uma dessas atividades em parceria é um nível de união. Em última análise, isso reflete a união deles com o Criador.”

“Sim, Um’el, é isso mas tem outro elemento a mais. Veja: não é só uma união/harmonização de pensamentos, como em uma conversa com concordância e troca de vivências e experiências; há um significado, mais profundo, do que isso.”

Um’el coçou o queixo. “Mas não é isso que eu estou falando, só que com outras palavras?”

Tur-nan juntou as duas palmas das mãos, como fazia quando ia começar a explanar um pensamento em detalhes. A silhueta de Abthiel permanecia parada como uma estátua com um sorriso calmo e um olhar plácido estampados.

“Me deixe falar com outras palavras então” disse Tur-nan. “Imagine dois seres tornando-se um.”

Um’el continuou segurando o queixo, enquanto esboçava um olhar curioso ao amigo.

“Mas ao mesmo tempo permanecendo indivíduos.”

Um’el considerou o enunciado por um tempo antes de responder: “A sua descrição lembra a existência do Criador em sua pluralidade e ainda assim em suas individualidades.”

“Isso” disse Tur-nan, mantendo as palmas unidas.

Um’el manteve o mesmo olhar enquanto respondia: “mas não é o que acontece com eles”.

“É onde eu queria chegar, Um’el. Isso _acontece_ com eles. Só não é da mesma forma que estamos acostumados a entender.”

“Desculpe, Tur-nan. De fato, eu não entendo.”

“Você mesmo falou como eles existem em níveis diferentes ao mesmo tempo, certo?”

“Sim. E em multiníveis, inclusive. Temos o nível físico, o espiritual, o mental. E há outros níveis conceituais mais simples do que esses, ainda. Esse nível de detalhismo na criação da existência deles é uma das coisas que torna-os únicos.”

“Os diferentes níveis interferem uns nos outros”, disse Tur-nan.

“Bem, sim, isso é óbvio.”

“Como se cada nível diferente refletisse em si uma parte do todo”, acrescentou Tur-nan.

O olhar de Um’el começou a mudar devagar. Era o efeito que Tur-nan queria.

“Consegue imaginar uma coisa sendo criada em níveis diferentes, e esses níveis sendo unidos para formar a coisa completa?”

Uma centelha acendia devagar no olhar de Um’el. Tur-nan estava conseguindo comunicar o que queria.

“Agora tente conceber essa coisa sendo criada, mas com os diferentes níveis sendo criados ao mesmo tempo, de forma que cada um está intrinsicamente ligado aos outros. Não são partes sendo unidas para formar um todo. É um todo que já foi feito como sendo apenas um, uma coisa única, mas ao mesmo tempo em partes.”

“Você quer dizer…”, começou Um’el. Tur-nan parou de falar, lendo no olhar do amigo o desenvolvimento de seus pensamentos. Que agora jorravam como uma sequência de frases: “Os níveis – a existência em multiníveis, e como isso reflete na multifuncionalidade da existência deles – não é só uma divisão funcional – eles existem e portanto atuam em cada nível, separado, mas ao mesmo tempo no todo…”

“Eles são um”, Tur-nan disse, tentando sumarizar a sequência de pensamentos de Um’el.

“Eles são chamados por um nome só, como se fossem uma só pessoa”, acrescentou Um’el.

“Exato. Não é só uma convenção. Eles são uma pessoa. E ao mesmo tempo, duas. Eles existem nessas duas formas simultaneamente.”

O olhar de Um’el foi além do olhar do amigo; ao longe, bem ao longe, mas ao alcance do olhar deles, estava Homem, o casal, mais além no meio do Jardim. Ele olhava para os dois agora com um entendimento diferente.

“E esse ato que eles fazem juntos, é muito mais do que uma união”, continuou Tur-nan. “Pra usar suas próprias palavras, isso é óbvio; é perceptível que a união acontece não só no nível físico mas também nos outros níveis quando eles praticam o ato. Mas não é disso que eu estou falando. Isso é óbvio, é claro que é óbvio. O que eu quero dizer é que esse ato tem um símbolo/significado de como eles existem/fluem/permanecem sendo um, mesmo sendo dois seres separados, mas a união existe e continua existindo. Eles são um, mesmo sendo dois. O ato apenas confirma/celebra/consolida o que eles já são por serem, apenas.”

“E então um nome só para ambos”, Um’el acrescentou.

“Não é só uma convenção, ou uma definição de identidade. É o que eles são” disse Tur-nan.

Um’el agora olhava para o casal de forma diferente. Podia ser isso? Mas como… mas ali estavam eles, andando no Jardim, existindo. Sim, era… eles estão bem ali… e ainda assim parecia um mistério.

“Isso… isso é belo” Um’el disse tentando definir seus pensamentos. “Eu não esperava que o Criador fizesse…” ele fez uma pequena pausa. “Ele sempre me impressiona”.

“Ele sempre impressiona a todos nós”, concordou Tur-nan, agora também observando o casal ao longe. “Assim como Ele é, assim Ele faz quando realiza seus pensamentos.”

Agora eram três estátuas perfeitamente imóveis que adornavam aquele canto do Jardim. Duas com uma expressão maravilhada nos olhos, como a de uma criança que descobre coisas maravilhosas do mundo pela primeira vez. A terceira, maior e mais alta, sorria calmamente com um olhar plácido.


Um’el observava em silêncio o céu à sua frente. Seus pensamentos reviviam suas memórias recentes.

Ele levantou o olhar mais para cima, para as estrelas, para o infinito estrelado. Seu pensamento continuava porém focado no mesmo lugar: o Jardim. O Jardim, e toda a criação ao seu redor. Homem. Os feitos do Criador.

Tudo aquilo já não eram coisas tão novas; a existência delas já amadurecia há algum tempo. Mas ainda assim tudo aquilo o atingia com um ar de novidade, como se tivesse acabado de acontecer.

Seus pensamentos relembraram as conversas com Tur-nan, como eles foram conhecendo e entendendo toda a extensão daquela nova criação. O que o Criador realizou em Homem ainda os maravilhava.

Aos poucos, seu olhar nas estrelas infindáveis começou a trazer seu pensamento para mais perto do agora; começou a imaginar como seria o futuro de Homem e do mundo que o abrigava.

Enquanto seus pensamentos davam voltas esvoaçando céus de possibilidades e potenciais, alguma coisa chamou sua atenção. Olhou para o lado e viu Ahnle voando em sua direção. Isso trouxe seu pensamento de volta para o agora do Jardim; apesar de Tur-nan e Abthiel geralmente serem seus parceiros de conversa e troca de pensamentos (ainda que Abthiel basicamente participasse com sua presença), a visão de Ahnle imediatamente faria qualquer um deles pensar no Jardim. Apesar de vê-lo pouco nos últimos tempos, foi Ahnle, dentre seus amigos mais próximos, quem mais esteve envolvido com aquela criação, com os assuntos envolvendo o Jardim e Homem. A chegada dele justamente no momento em que Um’el pensava sobre esses assuntos era oportuna. Um’el estendeu o braço acenando em um gesto de boas-vindas ao amigo e esboçou um sorriso, mas este sumiu tão rápido quanto começou quando percebeu a expressão consternada do companheiro.

“Ahnle?” disse Um’el ao amigo enquanto este descia bem à sua frente, com um movimento rápido. “O que acounteceu?”

Ahnle olhou fundo para os olhos do amigo que retribuiu o olhar. Ahnle quebrou o silêncio com apenas uma palavra: “Homem”.


A figura massiva de Abthiel espelhava, em seu rosto, o sentimento dos seus companheiros. Olhar baixo, queixo quase encostando nos braços cruzados, fitando o Jardim à distância, à sua frente.

Ao seu redor três companheiros igualmente calados, quatro estátuas totalmente imóveis não fosse pela pequena movimentação da brisa ao redor. Quatro olhares vendo o Jardim deserto. Homem, acompanhado de sua mulher, mais ao longe, além do Jardim, mas perfeitamente visíveis aos seus olhos.

A palavra tristeza pouco descreve o estado dos quatro. Não só dos quatro; haviam multidões de outros, observando, assim como eles. Alguns, aqueles que não mais compartilhavam da mesma habitação, com uma reação diferente aos acontecimentos. Os demais expressavam sentimentos similares: tristeza, assombro, decepção, perda. Palavras pouco descritivas para o que realmente sentiam.

Tur-nan pôs uma mão no ombro de Abthiel, sem tirar o olhar da distância, comunicando sua cumplicidade aos sentimentos do amigo. Que infelizmente pouco ajudava para consolar, apesar de ser silenciosamente bem recebida.

A mente de Tur-nan se revolvia enquanto absorvia a dor do mundo à sua volta. Tudo isto era belo, pensava ele, revivendo as mesmas palavras que tinha dito antes. Mas onde a beleza agora? Tudo isto era bom, declarou ele não muito tempo atrás. Mas onde agora?

A humanidade parecia perdida, e eles observavam enquanto Homem andava por um mundo que estava idêntico a ele, perdido. Onde a união, onde o reflexo dos mais altos pensamentos do Criador, onde a existência pacífica e harmônica, onde tudo o que antes estava ali? Estivera ali? Foram-se, foram-se embora mas ficaram, perderam-se e mudaram. Ainda os mesmos no mesmo lugar mas não mais os mesmos. A sensação de perda era quase palpável, para Tur-nan era mais real do que o vento ou o chão sob seus pés. Ele não conseguia deixar de fazer o paralelo, em sua mente, entre os caídos e a situação atual daquele mundo, daquela criação.

Um’el deixou uma lágrima escorrer lentamente. O olhar taciturno de Abthiel estava continuamente próximo de fazer o mesmo.

A própria terra não era mais a mesma, Um’el pensava. A terra, o vento, o próprio ar; até a luz da estrela chamada Sol, que iluminava aquele mundo, parecia não ser mais a mesma, se tal coisa fosse possível. A terra era a mesma de antes mas ao mesmo tempo não era mais; o mesmo se podia dizer do ar… dos cheiros, das árvores, da água, da relva… tudo estava quebrado, quebrado e perdido, pensava Um’el. Não apenas quebrado. Perdido também.

Ahnle tinha em seu rosto uma expressão quase idêntica à de Abthiel. Olhar baixo e taciturno fixo na distância, no casal da humanidade que se afastava. Dos quatro, ele foi o que menos participou das visitas ao Jardim e conversas a respeito; mas foi o que mais esteve envolvido antes que fosse realizado. Um’el olhou para o amigo e percebeu que seu coração pesava mais, talvez, do que todos os outros.

Depois de um longo silêncio Um’el foi o primeiro a proferir palavras. “Ahnle, é assim que acaba?”

“Não”, veio a voz de Ahnle, decidida ainda que triste, seguida de uma pausa. “O que vocês veem não é o fim ainda.”

Um’el e Tur-nan se voltaram para o companheiro, aguardando mais respostas. Abthiel permaneceu imóvel e com olhar fixo à distância, mas a sua atenção também se voltou para Ahnle, de forma particularmente perceptível aos demais.

“Alguma mensagem sobre esta situação?” perguntou Tur-nan.

Devagar, Ahnle começou a unir palavras em frases formando uma resposta, porém sem tirar o olhar da humanidade distante. “Nâo tenho palavras completas… só algumas mensagens que posso compartilhar… e mesmo assim não fui informado de tudo que há de acontecer”, disse, e fez uma pausa.

“Mas eu sei de uma coisa: há um plano, e ele já está em andamento.”

“Não será rápido. Não sei detalhes nem porquês; não sei tempos nem épocas. Mas sei que há um plano, e que ele será executado ao longo de tempos… o casal que vocês veem diante de vocês hoje, se multiplicará e a humanidade encherá este mundo. Eles se espalharão. Reinos e domínios serão estabelecidos; conhecimentos e ciências serão obtidos; a face deste mundo mudará muitas, muitas vezes; haverá filhos e filhas de Homem que se voltarão ao seu Criador… mas outros não… e muito mais coisas, que estão além dos meus ouvidos e olhar…”

“Este mundo dará voltas completas ao redor daquela estrela, milhares de vezes antes que o plano chegue à sua conclusão, pois há planos dentro do plano. Mas, ao fim, uma parte da descendência de Homem será trazida de volta. E, sim, até esta terra, haverá uma renovação para esta terra. Há planos até para isso.”

O silêncio voltou enquanto os amigos consideraram as palavras. O sol, já baixo no horizonte, iluminava seus rostos com uma luz alaranjada. Alguns dos outros já se iam embora.

“Então ainda há esperança”, pensou Um’el. “Ainda há esperança! Mas como… como recuperar aquilo que foi perdido, como restaurar o que foi quebrado…” e o pensamento parou ali quando ele considerou como o Criador sempre era capaz de surpreendê-lo. “Há um plano…”

Os pensamentos de Tur-nan eram parecidos com os do amigo. Ele pensou e considerou os tempos que ainda haveriam de acontecer; pensou em planos, possíveis planos… mas parou considerando o quanto não sabia. Mas saber que planos já existiam e já estavam em movimento era o suficiente.

Os quatro amigos ficaram parados em silêncio mais um tempo. Então Tur-nan, em silêncio, apenas olhou para cima e subiu. Um’el observou que quase todos os outros já haviam subido também; olhou para Abthiel, depois para Ahnle, que ainda exibia em seu semblante como fora atingido pelo acontecimento. Então olhou para cima e subiu.

Ahnle suspirou longamente. Olhou para Abthiel; pôs solenemente sua mão no ombro do amigo, transmitindo coragem e esperança. Então também se pôs em pé, olhou para cima e subiu.

Agora Abthiel estava só. A humanidade, o casal estavam quase sumidos na paisagem, longe ao horizonte, mas ainda perfeitamente acessíveis a seus olhos.

Devagar olhou para baixo. Devagar se abaixou, abriu uma das mãos e tocou a relva a seus pés. As pequenas folhas, movidas pela brisa, acariciavam seus dedos gigantescos como se fossem pequenos fios de cabelo. Abthiel ficou por um tempo parado, apenas sentindo. Gostava da sensação da relva. Sempre tinha gostado. Mas lhe incomodava a percepção de que aquela relva não era mais a relva que conhecera – de como ela tinha mudado; ainda era viva, verde, aparentemente a mesma, mas tinha alguma coisa… algo que havia sido perdido. Assim como em tudo ao seu redor.

Prendeu a relva entre seus dedos e levantou o olhar ao horizonte, onde o sol descia. Sua mente remoía as palavras de Ahnle. Tempos. Agora era questão de tempo.

Olhou novamente para a relva como se despedisse; devagar recolheu a mão e ficou de pé. Devagar olhou ao seu redor uma última vez. Depois olhou para cima, e subiu.

 

 

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